(continuando)
Cláudio diz:
- Por mim tudo bem, essa estória não tem muita importância pra mim agora. Eu quero saber de produto novo nas prateleiras logo! Estou ansioso para saber o que vocês vão me entregar em Abril!
- Muito bem - acompanha João - para saber isso precisamos continuar com o jogo do planejamento, o objetivo agora é maximizar a vazão de valor para o cliente, no caso, para você. Para isso, usaremos a prioridade de cada estória como o valor agregado dessa estória para você.
- Ah, agora eu entendi porque você me pediu para usar uma escala decrescente na pontuação da prioridade, fica mais fácil de enxergar o valor entregue em cada iteração, não é isso?
- Exatamente. E para sabermos isso precisamos continuar com o raciocínio anterior, se temos 80 joules semanais de trabalho, então vamos começar a encaixar as estórias de maior prioridade dentro das janelas semanais.
A equipe se concentra em ordenar as estórias por prioridade, indo da mais importante para a menos importante. Depois vão colocando na iteração até que a soma dos esforços dê 80 joules, e ai começa-se a preencher a próxima iteração e por aí vai. Em pouco tempo eles tinham uma visão geral para os próximos 4 meses. Todos pareciam muito satisfeitos com o resultado quando um dos desenvolvedores olhou para as tarefas e disse:
- Nós poderíamos otimizar a vazão dessa iteração - diz o rapaz apontando para um conjunto de cartões na mesa - trazendo essas duas estórias (A e B) cuja soma das prioridades vai dar maior do que essa aqui (C), mas que são mais fáceis e podem ser concluídas no mesmo tempo.
- Não, espere um momento, mas com isso essa tarefa aqui (C) será feita em uma iteração posterior e não estará pronta para abril! - diz Cláudio.
- Muito bem, nosso objetivo é aqui é produzir mais valor para o cliente em menos tempo, por isso que nosso amigo aqui sugeriu que fizéssemos estórias (A e B) que separadamente são menos importantes que essa outra (C), porém cuja soma do conjunto seja mais interessante que essa última. Se por acaso você acha que ela (C) é mais valiosa sozinha que essas duas (A e B) juntas então podemos aumentar a prioridade dela (C) ou diminuir a das outras.
Observando as janelas de tempo e pesando as possibilidades de mover uma funcionalidade para cima ou para baixo do stream de produção, Cláudio conseguiu identificar melhor as prioridades de cada estória. Após remanejar alguns cartões aqui e ali, o grupo chega a uma organização final das estórias pelas iterações e releases.
- Pronto - disse João - isso é o que nós entregaremos em Abril. - apontando para um conjunto de cartões na mesa.
- Entendi… - disse Cláudio.
- Toda semana nos reuniremos rapidamente para validar se as estórias previstas para a iteração estão passando pelos seus testes de validação, isto é, se foram completadas, e planejar a próxima iteração. Nesse planejamento novas estórias podem ser acrescidas, outras modificadas e outras removidas, você é quem manda aqui!
- Certo, certo. Mas me explique melhor aquela história de velocidade…
- Então, velocidade é a vazão de esforço da equipe por iteração. Nossa velocidade inicial é uma estimativa da relação entre joule e dia de trabalho. Mas a partir da segunda iteração já utilizaremos uma técnica chamada Yesterday Wheather que consiste em considerar a soma dos esforços das estórias completadas na iteração anterior como a velocidade da iteração atual. Assim, ao mesmo tempo em que ajustamos o planejamento à realidade, já que a alteração da velocidade empurra ou aproxima as estórias na linha de produção, também nos comprometemos apenas com o que conseguimos fazer no passado. Mas no geral, a tendência da velocidade é aumentar, que nada mais é que a representação da familiarização da equipe na plataforma, no domínio, na tecnologia, o aumento do entrosamento, etc. É com esse aumento de velocidade que contamos para poder encaixar as tarefas que aparentemente levaria mais de uma semana para serem concluídas hoje em dia. Caso até lá não consigamos essa velocidade, então teremos que dilatar a semana.
- Excelente.
Os homens se cumprimentam, os sorrisos nos rostos denotam o espírito alegre que formou-se na equipe. Vera comenta empolgada as boas coisas que virão com Sérgio, a equipe começa a brincar entre si demonstrando a amizade entre os seus membros. João acompanha Cláudio até a saída, onde ele vai pegar um táxi para o aeroporto, entre no vôo ainda esta noite.
- João, eu fiquei muito satisfeito com o que vi aqui hoje, parece até que conseguiremos fazer a nova versão do EasyStuff melhor e em menos tempo…
- E por que não iríamos, Cláudio. O que fizemos aqui foi simplesmente colocar as responsabilidades nos seus devidos lugares, você o que quer em quanto tempo, nós dizemos o que podemos fazer e em quanto tempo e você decide finalmente o que será feito.
- Vocês estão de parabéns pela iniciativa, não conheço ninguém no mercado que trabalhe como vocês.
- É uma mudança de postura, o fator que pesa mais aqui é a cultura. As equipes que não tem uma cultura de autonomia, de abertura para diálogo, de visão comum tem dificuldade em compreender um modelo como esse. E o cliente e a empresa desenvolvedora do software acabam virando adversários desconfiados do que colegas que se ajudam.
- É verdade. Bem, vou indo, fico ansioso em ver como isso vai continuar.
- Boa viagem, Cláudio, espero que a volta seja melhor que a vinda.
- Será.
(FIM)
Para esclarecer alguns dos conceitos que trouxe nesse post eu fiz essa animação a seguir. Os quadrados amarelos são estórias do usuário, o número seguido do j (joule) representa o esforço marcado em cada estória. O número seguido de um v (valor) representa a prioridade/valor também já marcados em cada estória.
